A 6 ª Mostra Canavial de Cinema age sob a proposta de um “cinema de guerrilha”, trazendo filmes que se coloquem diante de conflitos sociais ou que tragam consigo as marcas de um difícil processo de produção à margem do fomento ao cinema e audiovisual no país. Curtas-metragens de embate, curtas-metragens de posição marcada, curtas que de alguma maneira possam espelhar as agruras de seu tempo e de seu lugar.
Entre inevitáveis altos e baixos, nos últimos anos o Brasil teve a oportunidade de reaprender a investir em sua própria cultura de cinema, em sua própria cultura do olhar, e, consequentemente, como sempre foi de nosso feitio, certos filmes reaprenderam a olhar de volta. O Brasil, não podemos esquecer, nasce de um erro de percurso, uma descoberta equivocada, uma invasão que engatilharia uma sequência de conflitos, de erros, um erro atrás do outro, fazendo-nos existir, querer desistir, porém persistir, resistir, pois diante de tantos erros é que surgem alternativas.
Estão aqui reunidos, portanto, filmes dispostos a encarar o presente desesperado e, não menos importante, que sangram um passado ainda muito cheio de si. Da simbólica vingança racial e histórica ao olhar de crianças que se veem envolvidas entre o desejo e a angústia; do mapeamento de um município emparedado por suntuosas mudanças a um painel de diversos Brasis periféricos; do canto dos orixás ao canto da Ceilândia, das algemas escravocratas às prisões urbanas, da mise em scène elegante ao atropelo de uma aflita câmera de celular, das flechas às pedras, das pedras aos tratores, dos tratores às fardas, do banditismo por necessidade ao banditismo por pura maldade, que cada filme se erga como um monólogo ao pé do ouvido e ao alcance do olhar, a nos lembrar, como Chico Science nos lembrou, que são demônios aqueles que destroem o poder bravio da humanidade.
Fabrício Cordeiro
Curador da 6ª Mostra Canavial de Cinema
Ao adotar o tema “Cinema e Guerrilha” como norteador da programação da 6ª edição da Mostra Canavial de Cinema acreditamos cumprir com o papel de ação cultural engajada na defesa de uma sociedade mais igualitária em direitos e oportunidades.
Arte é trincheira de luta ideológica, onde se alargam as margens de um senso comum estabelecido à força pela desinformação em massa. Propomos com nossa programação potencializar obras de arte que alarguem as margens das consciências. Esta é a subversão que nos cabe.
Os filmes e debates apresentados na 6ª Mostra Canavial de Cinema questionam a naturalidade dos processos que engatilham, no passado e no presente, nos centros urbanos e nas zonas rurais, nos assentamentos e nas comunidades quilombolas e em todo país uma série de desigualdades que perpetuam difíceis condições de vida para os brasileiros e brasileiras.
Desta forma convidamos a população local e demais interessados a participar conosco a 6ª Mostra Canavial de Cinema, que percorrerá 08 cidades da região da Mata Norte de Pernambuco entre 10 e 29 de janeiro de 2017 com programação de filmes, shows, seminário e oficinas.
Caio Dornelas
Idealizador e coordenador
Cidades
CENA 1: CONDADO
Acampamentos levantados. Barracas de plástico preto içadas no mar de cana. A desterritorialização da lavoura familiar e a retomada do solo. Os brincantes da tradição rural brindando “Pra puá, pra puá / Fazer mizura e dançar.” O homem da mata que procura os caboclos e acolhe as copas das árvores, corta cana no facão.
Corta!
CENA 2: GOIANA
Mais um novo viaduto sobre a BR-101. Sombra para homens e calangos. Sobre o asfalto, novos Jeeps para a América e África do sul, montados no quintal. A tradição operária. A traição açucareira. O cimento para a nova proposta de concreto. Cidade estratégica no repertório econômico de Pernambuco. Na história, revoluções. No presente, uma perene ebulição. No ar… combustão.
Corta!
CENA 3: TRACUNHAÉM
Balas de borracha. O engenho prado sobre açoite. A carranca de barro que não afugenta o spray de pimenta. No centro. O leão de trança vendido na calçada. O ofício de oleiro. As unhas com terras. As sambadas. Os b-boys. As quebradas.
Corta!
CENA 4: LAGOA DO CARRO
Nas proximidades do leito do Rio Tracunhaém, no profundo das matas sombrias daquele vale e ao redor de uma lagoa o povoado se fez cidade, de um acidente fez seu nome, na tapeçaria seu alicerce e com o museu da cachaça sua fama.
Desce mais uma!
Corta!
CENA 5: NAZARÉ DA MATA
O Cumbe. Os que sobreviveram com cambindas. O maracatu que persiste em seu terreiro. O massacre do acampamento Camarazal, porque as armas não atiraram rosas. A luta contra o latifúndio e a opressão, contra a terra, o trabalho, o homem e o pão. O labutar ticoqueiro. O desafio de mestres num pé de parede. A calunga como proteção.
Corta!
CENA 6: VICÊNCIA
A sombra do pé da serra abrigou o espirito de liberdade, alimentou a coragem das negras e negros aquilombados. Na entrada da vila, busto de Zumbi dos Palmares, nas ruas, casas e praças um povo que trás como pedra fundamental de sua história a palavra liberdade.
Corta!
CENA 7: ALIANÇA
De corpo fechado o caboclo de lança segue, com cravo da boca. Atiça a lança com destreza, tanto quanto o cabo da enxada. O Cruzeiro da Bringa. O flamular das fitas coloridas para São Benedito. A Lagoa Seca à indicar a direção do foco. O azougue de todas as chãs.
Corta!
CENA 8: SÃO VICENTE FERRER
São Vicente Ferrer é terra úmida, o que se planta lá , colhido será. Cana, café, uva e banana.. teatro, poesia, cinema e música. Do alto do cruzeiro o horizonte se espicha e o clima esfria, a melhor pedida é contemplar a beleza despretensiosa do ritmo da bela cidade que é São Vicente Ferrer.
Corta!