Após tarifa subir de R$ 1,60 para R$ 2,10, equipe passou uma semana acompanhando rotina de quem precisa dos trens para se locomover.
Elevadores e escadas rolantes quebradas, demora de mais de 20 minutos, superlotação, calor e até passageiro passando mal. Foi a realidade que a TV Globo e o G1 encontraram ao circular, por uma semana, no metrô do Grande Recife, logo após o aumento da tarifa – que passou de R$ 1,60 a R$ 2,10 e afetou 400 mil pessoas. Em 2020, o valor da passagem vai para R$ 4.
A reportagem Estação Sufoco é publicada dois meses depois do T.I. Sufoco, série que mostrou as dificuldades dos 2 milhões de passageiros que precisam utilizar o ônibus todos os dias na Região Metropolitana.
O superintendente da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) no Recife, Leonardo Villar, reconheceu que o sistema tem problemas que precisam ser solucionados, mas outros fazem parte da rotina. "A lotação no metrô é uma característica dele. É um transporte de massa", aponta.
A Linha Centro do Metrô passa por 19 estações e tem dois ramais, um que vai até Camaragibe e outro que leva até Jaboatão dos Guararapes. Na última terça-feira (7), chegamos à estação Camaragibe às 6h40. O primeiro trem saiu lotado. E nem todo mundo conseguiu embarcar.

Não tem condição. Muito cheio. A gente paga caro e tem um serviço de péssima qualidade. Sem condições de andar nesses trens. Só ando porque é o jeito”, afirma o servente de pedreiro Gilson Severino. O letreiro eletrônico, que deveria indicar a hora e quanto tempo falta para o metrô chegar, está quebrado: em plena manhã, marca 17h.
O trem demora mais de 20 minutos para chegar e a plataforma da estação fica apinhada de gente. “Todo dia é isso. Não muda. Todo dia mando e-mail para a ouvidoria, mas não recebo resposta. Chego atrasado constantemente por causa da demora do metrô. Eles nunca obedecem o intervalo”, reclama o técnico em radiologia Antônio Quirino.
Quando o metrô finalmente chega, a hora do embarque é marcada por confusão. Na ausência de orientadores, o empurra-empurra é inevitável. “Isso é um absurdo. A gente sai de casa cedo e o metrô chega uma hora dessas. Aumenta a passagem, mas cadê o serviço?”, questiona uma mulher. “A gente paga caro para ir em pé, apertado, empurrado”, complementa o linheiro Sidney Balbino.

A estação Cosme e Damião, construída para a Copa do Mundo e com menos de cinco anos de uso, já apresenta problemas de infraestrutura. As marcas de infiltração são visíveis no teto. As catracas amontoadas ao lado da escada rolante.
Na estação seguinte, a Rodoviária, uma cena que resume as condições atuais do metrô. Um homem tenta sair do vagão a todo custo, em meio ao trem cheio de gente. Ele acaba ficando preso na porta. O passageiro, vítima do calor e da superlotação, passa mal. Vomita na plataforma.
“Isso poderia acontecer com qualquer pessoa, até mesmo comigo. Eu mesma não entrei porque não senti confiança. O rapaz chega ficou branco”, diz uma idosa.
A estação Rodoviária, que recebe usuários do Terminal Integrado de Passageiros (TIP), vindos do interior e de outros Estados, tem rampas mal iluminadas. Muitas lâmpadas estão queimadas.
De volta aos trens, reencontramos a superlotação e as reclamações. “A gente paga passagem, mas não vale a pena andar de metrô. É um sufoco. Um aumento que não considerou o trabalhador brasileiro e ainda está nessas condições”, afirma o almoxarife Charles Gutemberg.
O empresário cearense Elias Silva utilizava o metrô pela primeira vez. E estava incomodado. Ao desembarcar na estação Recife, resumiu o sentimento dos passageiros. “Eu me senti como se estivesse em um presídio. Parece que soltaram o povo, como se tivesse todo mundo aprisionado. A sensação é de descaso com o povo e desrespeito com o cidadão”, diz.
Linha Sul
A Linha Sul, com 12 estações, é utilizada por 120 mil pessoas. E também sofre com a superlotação. Desde a estação Cajueiro Seco, em Jaboatão dos Guararapes, os trens já saem cheios. E a situação beira o insustentável na parada seguinte, em Prazeres. “Ainda aumentam a passagem. Isso é para diminuir, não é para aumentar. A pessoa é amassada aqui dentro. Parece uma lata de sardinha”, conta o pedreiro José Marcos.
Nas estações Monte dos Guararapes, Porta Larga e Aeroporto, há escadas rolantes e elevadores quebrados. A aposentada Maria Guiomar Lima precisou encarar a escadaria. “Isso é uma falta de respeito, principalmente com nós, idosos. Tenho 70 anos, a perna inchada, sem condições”, lamenta.

Grávida de sete meses, a supervisora Givanilda Queiroz não consegue esconder o cansaço enquanto sobe os degraus. “Vamos ver se melhora depois do aumento, porque está difícil. Tenho que subir essa escada. É minha única opção”, diz.
Em Monte dos Guararapes, o trem chega, mas dezenas de pessoas não conseguem embarcar. A superlotação não deixa. “Falei que não daria para entrar. Esse metrô é um absurdo. Leva 20 minutos para passar e a gente não consegue entrar. Chego atrasada no trabalho por culpa do metrô”, critica a manicure Auda Maria.
Um cachorro circula pela plataforma da estação Tancredo Neves, um risco de acidente. O mural de informações está desgastado e tomado por pichações. Nos vagões do metrô, vidros estilhaçados denunciam vandalismo.

Reajuste polémico
O aumento foi autorizado pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), no dia 22 de abril. O reajuste teve que ser decidido na Justiça por causa de uma ação movida em Minas Gerais. Além do Recife, houve aumento em Belo Horizonte (MG), João Pessoa (PB), Maceió (AL) e Natal (RN).
Fonte: G1